
Divã em que Freud passou seus últimos dias e faleceu.
Os Últimos Momentos e seu Divã final
“Meu caro, o senhor prometeu que me ajudaria quando eu não pudesse mais ir em frente. Agora é só tortura e não faz sentido.”
Assim falou Sigmund Freud nos últimos dias de sua vida. Seu médico Max Schur apertou-lhe a mão e prometeu uma sedação adequada. Pouco antes de receber a morfina, Freud pediu que seu médico conversasse com sua filha Anna, garantindo que ela estivesse informada sobre seus cuidados e decisões finais. Essas palavras mostram a lucidez e a determinação de Sigmund Freud até o fim.
Na manhã seguinte, recebeu cerca de 20 mg de morfina, suficiente para que pudesse descansar em paz. Pouco antes da meia noite do dia 23 de setembro de 1939, em sua casa em Londres, Freud faleceu em um divã especialmente encomendado pela família, da loja J. and A. Carter’s, localizada na Great Portland Street, conhecida pela fabricação de móveis para idosos e pessoas com necessidades especiais.
O divã tem aproximadamente 2,24 metros de comprimento, 54 centímetros de altura e 77 centímetros de largura, com estrutura de mogno escuro e pés torneados. A base estofada, fixada na parte superior da armação, conta com um mecanismo especial que permite elevar a cabeceira, garantindo maior conforto ortopédico ao paciente. O assento, decorado com seda e algodão em padrão floral, conta com cordões de seda azul, rosa e verde tanto no assento quanto no encosto.
O móvel foi colocado ao lado do seu divã original e icônico de Viena, que o tornara mundialmente conhecido, mas que não ofereceria suporte e conforto suficiente nos seus últimos dias de vida.
Chegada a Londres e a Vida Cotidiana
Freud havia chegado Londres em junho de 1938, refugiado do regime nazista, e se mudou para o número 20 de Maresfield Gardens, em Hampstead, em setembro do mesmo ano.
Antes disso, residiu temporariamente em Primrose Hill, enquanto seu filho arquiteto Ernst Freud adaptava a casa, incluindo a instalação de um elevador para facilitar sua mobilidade e o conforto da família. A imprensa britânica acompanhava a chegada de Freud enquanto telegramas, cartas, flores e presentes se acumulavam em sua porta.
Em sua nova residência, Freud passava a maior parte do tempo no térreo, rodeado por livros e objetos de sua coleção. Dormia em um cômodo no andar superior, ao lado da esposa Martha. Mesmo debilitado, manteve uma rotina ainda ativa: recebeu alguns pacientes, concluiu “Moisés e o Monoteísmo” e redigiu o “Esboço da Psicanálise”, uma síntese de sua obra.
Visitas Memoráveis e Reconhecimento
Durante os dezoito meses que ainda viveria, Freud foi celebrado, visitado e homenageado como nunca antes. Recebia amigos, escritores, intelectuais e colegas analistas que vinham a Londres para despedir-se.
Levado por Stefan Zweig, Freud conheceu Salvador Dalí, o qual fez croquis de seu rosto em seu estilo surrealista.
Entre as visitas memoráveis, em 25 de junho de 1938, recebeu uma delegação da Royal Society para assinar o livro oficial da instituição, o mesmo em que se encontrava o nome de Charles Darwin. Em 28 de janeiro de 1939, Virginia Woolf também esteve em 20 Maresfield Gardens para encontrá-lo, em um dos encontros mais marcantes desse período.
Em dezembro, técnicos da BBC foram até sua casa para registrar sua única mensagem em inglês, ainda que com uma voz dificultada pela prótese.
Nessa época, Freud ainda atendia poucos pacientes, mas em agosto de 1939 foi forçado a interromper seus atendimentos.
Últimos Dias e Legado
Quando ficou claro que necessitaria de cuidados permanentes, o consultório se transformou em uma pequena enfermaria. O divã original de Viena não oferecia suporte suficiente, e o novo divã de Carter’s passou a ser o lugar onde passava grande parte do tempo.
Nos últimos dias, Freud começou a apresentar perda de memória e dores intensas devido ao câncer. Seu corpo exalava odores que incomodavam o cachorro e atraíam moscas, levando os cuidadores a usar um mosquiteiro sobre o divã. Ainda assim, manteve o hábito da leitura: devorou “La Peau de chagrin”, de Balzac.
No jardim, buscava alívio em um balanço, contemplando as flores.

O vaso grego antigo com as cinzas de Sigmund e Martha Freud.
Na manhã de 26 de setembro, seu corpo foi cremado no crematório de Golders Green, em Londres, e suas cinzas foram depositadas em uma de suas urnas gregas favoritas.
No funeral, Ernst Jones, amigo próximo e biógrafo de Freud disse:
“…Um grande espírito deixou o mundo…Freud nos inspirou com sua personalidade, caráter e ideias, e seu espírito criador se infundiu em todos nós… Assim nos despedimos de um homem de quem não conheceremos semelhante.”
Stefan Zweig, escritor e amigo de Freud, fez em seguida o elogio fúnebre em alemão.
“… Obrigado pelos mundos que nos abriste e que agora percorremos sozinhos, sem guia, sempre fiéis a ti, sempre pensando em ti, com veneração, amigo mais precioso, mestre mais amado: Sigmund Freud.”
Hoje, o divã em que Freud faleceu permanece guardado e cuidadosamente preservado no Museu de Freud em Londres , no andar superior, junto aos arquivos e documentos de Sigmund e Anna Freud. Este móvel histórico pode ser visto por quem participar do tour “Nos Bastidores de Maresfield Gardens”, conduzido por Daniel Bento.


